As «Festas do Povo» de Campo Maior, aquelas que nascem por vontade deste, mantêm-se somente como promessa, navegando a sua concretização em muitas dúvidas. Em 2004 a vila alentejana «oferecia» aos campomaiorenses a sua festa, assim como a «dava» ao milhão de visitantes rendidos à magia dos jardins de papel suspensos. Volvidos quatro anos, em 2008, a Festa não apareceu e tudo se manteve na suspeição de um 2009 com flores, o que não vai acontecer.
Fala-se, agora, de flores em 2010; assim como se fala recorrentemente na extinta Associação de Festas para qual se quer encontrar um novo rumo; como também se refere a anterior Comissão de Festas, modelo de organização dos anos 80 que parece deixar, entre algumas vozes, saudades. Por seu turno a actual autarquia fala em tempos difíceis para as festas, enquanto membros de elencos camarários anteriores apontam para um certo regresso às origens, com um modelo mais espontâneo de evento. Um caminho bem diferente daquele que é deixado por um dos membros da anterior Associação ao falar em profissionalização.
Nas ruas o povo lamenta a ausência das suas festas, lançando a sua concretização para um futuro difuso. Os mais velhos recordam as festas antigas e apontam à indiferença dos mais novos. Os jovens, sem negarem o valor das festas e eventual envolvimento, dizem-nas dos mais velhos.
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Café Portugal seguiu rumo ao Alentejo para perceber o que são hoje estas Festas ditas do povo, escutando os principais intervenientes, percebendo sensibilidades e possíveis caminhos.
Publicamos o primeiro capítulo, breve, de uma história que aprofundaremos ainda esta semana.
As incertezas do presente e o futuro das Festas tecido nas palavras de quem as vive:
João da Silva, habitante de Campo Maior
Aos 86 anos lamenta que as festas não se tenham realizado já. «Considera que as Festas são do Povo e que acontecem quando o povo quer, mas neste momento a juventude não liga e os mais velhos, como eu, já não são capazes».
Ana Golaio, Vereadora da Cultura no actual elenco camarário presidido por João Burrica
«É um ano muito difícil para festas. O tempo das festas é tempo de união e as eleições não provocam bem essa união».
«A grandiosidade das festas deu origem a uma associação até por causa da candidatura a quadros comunitários. Em 2004, a Associação mostrou as contas auditadas e estavam a saldo zero. Parte-se do princípio que está tudo pago».
«O trabalho [da Associação] é o de motivar, ir junto dos cabeças de rua saber a vontade de cada um. Depois colaborar e financiar».
«Penso que a tradição não se vai perder porque há jovens, com 20 e 30 anos, a fazer flores».
«Quanto à profissionalização das Festas, se formos para esse modelo, em minha opinião terá logo de mudar o nome, porque deixam de ser do povo. Se pagamos para que sejam feitas deixam de ser do povo».
José Carita, membro de Comissões de Festas em 1982 e 1985, época em que foi presidente da Câmara Municipal de Campo Maior Fernando Caraças
«Estou convencido que vai dar muito trabalho recuperar as festas. É uma questão de mentalidade».
«A comissão não existia juridicamente, era composta por um grupo de pessoas espontâneas que colaborava com a Câmara».
«Em 1982 a Comissão não tinha dinheiro nenhum, conseguimo-lo com os parques de estacionamento e com um sorteio que fizemos. Se bem me recordo sobrou dinheiro, que reverteu para as festas de 1985».
«O facto da Associação dar tudo às pessoas [refere-se ao papel para as flores, os arames, colas, entre outro material] a custo zero [como terá acontecido em 2004] é, para mim, cortar um pouco com aquilo que era a essência das festas. O empenhamento das pessoas quebrou-se».
«O futuro é um pouco incerto porque, agora, as pessoas podem esperar que tal como nas festas anteriores se lhes ofereça tudo».
«Uma boa parte da juventude interessa-se. Tem é de haver um pontapé de saída».
«As Festas são um bem cultural demasiadamente importante para se perder e nem é uma questão de turismo, porque aquilo é nosso».
José Mexia, habitante de Campo Maior
Na casa dos 20 anos José Mexia afirma que «os jovens não estão muito motivados para as festas, acham que é uma coisa dos mais velhos. Eles é que sabem montar as festas». Contudo, José Mexia admite que, «se houver alguém a puxar acredito que a juventude se alie e ajude a montar as festas. Este ano não vão haver festas, diz-se que para 2010 talvez haja. A Associação agora está morta”.
Júlia Galego, presidente da Assembleia-Geral da Associação das Festas do Povo
«Os últimos corpos sociais da associação datam de 2003. Alterámos os estatutos, foram modernizados e conseguimos o estatuto de utilidade pública. Em 2007 não ouve listas para a associação».
«Nas últimas festas, não só nas de 2004, como na anterior, já se caminhou um pouco para a profissionalização. Isto porque a associação teve de contratar pessoas para fazerem determinado trabalho que as ruas não eram capazes de fazer».
«Houve pessoas colocadas pelo fundo de desemprego e outras contratadas directamente pela associação para fazer tectos e alguns canteiros. Só assim foi possível ornamentar algumas ruas, porque apenas com os moradores não era possível ornamentá-las».
«Em Junho houve uma manifestação de um grupo de associados para se candidatarem aos corpos sociais. Neste momento está agendada para 24 de Julho a assembleia-geral que defina as regras para as novas eleições».
«A última direcção mandou, pela primeira vez, elaborar um estudo do impacto económico a nível regional. Ficámos espantados com o impacto que as festas têm. Badajoz, Elvas, até mesmo Portalegre beneficiam com as festas. É necessário que as entidades que beneficiam com as festas também contribuíam para a sua organização. Contudo, seria preciso organização para gerir esta realidade».
Paula Pilar, habitante de Campo Maior
«Antigamente era o ‘cabeça’ de rua que controlava os custos de montar a festa. Nos últimos anos já foi a Associação que fez isso».
«Em 2008 não houve festas porque quando se pensou nisso umas pessoas queriam fazer as festas e outras não. Aqui, ou querem todas, ou então não se fazem as festas».
José Carvalho, vereador da cultura do elenco camarário na década de 80
«Em 2004 as festas foram feitas com uma exuberância muito grande. Acredito que estas têm de ser feitas com a sua simplicidade e verdade. As festas são no fundo a vivência das ruas».
«Há receio por parte das pessoas pelo desconhecimento da situação a nível económico da Associação» [refere-se à falta de candidatos para os órgãos directivos da Associação das Festas do Povo].
João Batista Celestino, membro do Conselho fiscal da Associação das Festas do Povo
«As últimas festas custaram 400 mil euros. O dinheiro que tínhamos em caixa não chegou para as despesas na altura, mas neste momento está tudo pago, não se deve nada a ninguém».
«Em 2004, porém, houve um exagero na animação das festas. Isto porque houve muitos eventos com artistas de renome, onde ninguém pagou para assistir. Foi tudo pago pela associação, por isso chegámos aos 400 mil euros de despesa».
«A associação faz a iniciativa não para ganhar dinheiro mas para mostrar aos outros a beleza das festas do povo».
Francisco Galego, historiador e autor do livro «Festas do Povo das origens à actualidade»
«As pessoas faziam os ornamentos para a festa em regime de voluntariado. A cultura de vizinhança era ainda muito forte e importante para desenvolver as festas. Actualmente já não é assim. Ou nos adaptamos ou desaparecemos».
«As festas correm o risco de desaparecem caso não haja um impulso a nível do poder local e a nível de outros poderes. Antes eram feitas pela disponibilidade das pessoas, hoje têm de ser, também, um factor de desenvolvimento criando emprego, dando ocupação aos jovens, que então, iriam desempenhar um papel muito importante. Penso que a profissionalização é algo necessário para que as festas sobrevivam».
Ceia da Silva, Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo
«As festas do povo são um grande cartaz turístico. Para ser um evento tem de ter alguma periodicidade. A iniciativa não pode morrer, mas tem de se reflectir sobre a sua atitude».
«Eventualmente não será possível fazer tantas ruas, talvez se deva diminuir. Por exemplo restringir apenas ao centro histórico para que possa constituir um cartaz turístico».
Por agora… apenas algumas opiniões. Para fazer crescer o apetite pelas “histórias” que aí vêm nos próximos dias.
Estamos apenas a lançar a discussão e temos curiosidade em saber como o universo dos blogues de Campo Maior vai reagir a este desafio. Prometemos estar atentos ao que for sendo escrito e trazer às páginas do Café Portugal os ecos desse debate.
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