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Herdade do Freixo do Meio - Um Alentejo biológico e sustentável

Em 1990 as terras da Herdade do Freixo do Meio caminhavam para o abismo. Morriam. Alfredo Cunhal Sendim, à data, um jovem engenheiro zootécnico, quis fazer da propriedade familiar um local rico pela sua biodiversidade. A recuperação do montado tradicional foi o caminho a seguir. Ao lado de sobreiros, nascem hortícolas e fazem-se pastagens. A multi-actividade dá emprego aos locais e requer criatividade para se manter num mercado que aposta na monocultura.

Sara Pelicano | sexta-feira, 28 de Maio de 2010

A aldeia de Foros de Vale de Figueira dista 14 quilómetros de Montemor-o-Novo, no Alentejo. Na entrada da vila de casas brancas, uma placa indica o caminho para a Herdade do Freixo do Meio. É em plena planície alentejana que o lisboeta Alfredo Cunhal Sendim, proprietário da herdade, lançou sementes há 20 anos.
O caminho de terra batida permite observar a paisagem de montado, os sobreiros, os burros. Há biodiversidade. O Sol ainda está a despontar na linha do horizonte, mas já se respira o ar quente de um dia onde se esperam temperaturas máximas de 35 graus. Alfredo Cunhal Sendim recebe-nos numa sala da herdade. Um quadro de ardósia tem notas escritas que falam da loja onde se comercializam os produtos biológicos saídos dos 1900 hectares daquela terra. Bancos corridos aguardam uma visita de uma escola profissional. De Abrantes chegará perto de uma centena de alunos de agricultura. Sentamo-nos e retrocedemos no tempo. Aos 17 anos, Alfredo vai para Évora, «por acaso» como diz, estudar engenharia zootécnica. A terra que hoje gere fazia parte de uma série de propriedades do avô, que após um período de nacionalização, foi retribuída aos seus donos. O jovem já acompanhava a mãe e o avô nas lides agrícolas e, 1990, quando a Herdade do Freixo do Meio regressou à família, Alfredo Cunhal Sendim tomou-lhe as rédeas. Comentando que «hoje já se sente alentejano», Alfredo relata os primeiros momentos da chegada ao terreno próximo da aldeia de Foros de Vale de Figueira. «Quando aqui chegámos, eu e a minha família, pensamos: o que faz sentido fazer?». A ética de valorização do bem comum foi uma das primeiras respostas que surgiu. «Uma propriedade privada só faz sentido numa perspectiva de responsabilidade verdadeira. Eu posso ter esta herdade só para mim, assim como um jardim, um clube de caça para desfrutar ou posso ter, no limite extremo, nada para mim mas sim para a comunidade. A perspectiva mais correcta está próxima do segundo ponto», diz Alfredo.

Os alunos chegam. O silêncio da natureza é cortado pelo rebuliço de quem está em visita de estudo. Dirigimo-nos, então, para junto dos convidados. Alfredo lembra-se que nasceu há poucos dias um burro. Fomos vê-lo. O caminho de terra batida percorrido de carro, horas antes, é agora calcorreado a pé. O nosso entrevistado aproveita para recolher do chão beatas de cigarros. A preservação da natureza é não só o seu trabalho diário como um princípio de vida. O jovem burro é arisco e não deixa que nos aproximemos. Já os mais velhos parecem querer festas, colocando o focinho sempre a jeito para as receber. Ao longe vêem-se cavalos. Alfredo explica de imediato que «ali, os cavalos são animais de trabalho, não tanto de lazer».

A recuperação do montado
«Quando aqui chegámos, vimos que o montado de sobro e azinho estava completamente em declínio e, sem grandes concepções de sustentabilidade, percebemos que aquilo não estava bem. Não havia uma árvore nova há 50 anos». A decisão de recuperar a biodiversidade foi o segundo caminho tomado. «Os povos que foram passando por aqui pegaram no ecossistema que encontraram e adaptaram-no às necessidades. Conseguiram tudo o que precisavam do ecossistema sem o quebrar, sem infringir as suas leis principais. Nos últimos 200 anos, tudo o que tem sido feito é estragar este ecossistema», diz Alfredo. A voz, que ganha contornos entre o entusiasmo e a revolta, continua: «Durante anos pegaram no sistema do montado, equilibrado assente em floresta, biodiversidade, animais, hortícolas, multi-actividade, e começamos a intensificar isso e a puxar para a monocultura, quando o sistema precisa de maior diversidade». O regresso ao montado começou a ser delineado. O primeiro passo foi saber o que é o montado. «É uma coisa fantástica. O montado vive de diversas culturas, o oposto do que é feito hoje por toda a Europa, onde a monocultura se destaca. Na multi-actividade do montado, no mesmo espaço há árvores que produzem cortiça, madeira e pinhões, há pastagens, cereais, hortícolas, vinha, entre outros elementos», explica o engenheiro. Paralelamente à recuperação do património ambiental, a ética de bem comum que falámos no início foi criando expressão. Os cerca de 30 funcionários da Herdade do Freixo do Meio são moradores da aldeia próxima e de outras localidades do concelho. Alfredo analisa com a colega a melhor forma de fazer a visita de estudo. Decidem separar os alunos em dois grupos. «Com a monocultura há ineficiência completa na utilização dos recursos». Com esta expressão, regressa à nossa entrevista. Procuramos uma sombra, o Sol já está intenso. Alfredo continua então a falar da monocultura, visível por exemplo em alguns olivais do Baixo Alentejo. «A monocultura é o caminhar para o abismo devido à vulnerabilidade daquele tipo de produção. A dependência de factores como água, energia é enorme. Nesta cultura, o solo só subsiste de alimentado artificialmente. A monocultura contrairia a biodiversidade do planeta», conclui.

Gestão sustentável
Movendo-se com agilidade entre as ervas que nascem espontaneamente na entrada da herdade, o nosso anfitrião comenta: «a monocultura aparece porque estamos numa lógica de globalização e faz-se aquilo que é competitivo no mercado internacional. Este é um exemplo de uma economia desligada das questões ambientais e sociais». Depreendemos então que o montado não é competitivo e quisemos saber como sobrevive o Freixo do Meio. Sustentabilidade parece ser uma palavra transversal a toda vivência desta herdade. «Tenho um estaleiro. Tudo aquilo que não é preciso e não é reciclável guardo ali. Quando preciso de alguma coisa, antes de ir à loja, passo por lá. Na hortícola o que não vai para frescos, vai para alimento dos animais. Alguns automóveis de trabalho funcionam com óleo de frituras», conta. Pelo campo espalham-se painéis solares para obter energia e até mesmo os fertilizantes da terra são naturais. Exploramos as casas de banho ecológicas. «As casas de banho secas são muito ancestrais. A diferença é que não utilizam água para remover os dejectos. O problema de usarmos água no autoclismo é que não resolvemos o problema, afastamo-lo. Os nossos dejectos fazem parte do ciclo da fertilidade e, desde que devidamente tratados podem e devem integrar o solo vivo. A casa de banho seca faz essa retoma dos nossos dejectos na fertilidade da terra. As vantagens: não uso água, não afasto o problema, mas resolvo-o porque dos dejectos faço fertilidade. Para este fim é preciso ter alguns cuidados. Os nossos dejectos são perigosos devido a algumas bactérias que neles se encontram e são prejudiciais à saúde. Tenho, então, de garantir que aquilo é compostado com uma razão equilibrada de carbono e azoto. Para isto tenho de colocar lá dentro o papel higiénico, raspas de madeira. Há depois também um aquecimento térmico e passados seis meses, aquilo é adubo.

Mercado desajustado
O mercado da agricultura biológica, aquela que é feita na Herdade do Freixo do Meio, está acessível a pessoas com poder económico, devido a um «desajustamento do mercado», confessa o mesmo responsável. Alfredo Sendim considera que deveria existir uma política mais local e explica: «Se poder vender os meus produtos aqui, não vou para Lisboa., Tudo o que seja autonomia local próxima faz sentido». A exportação, que já foi uma realidade na herdade, seria contrária aos processos de conservação da natureza, porque implica mais gastos e poluição. Além da loja do próprio Freixo do Meio, Alfredo Sendim fornece outra em Évora e possui um espaço no Mercado da Ribeira, em Lisboa. O mercado interno é, neste momento, aquele que tem maior expressão no escoamento dos seus produtos. «A grande dificuldade destes modelos [de globalização] é gerir a dispersão. Temos uma loja porque os modelos de comércio não estão ajustados à realidade da microprodução. Uma das formas de sobreviver neste sistema e aproveitar tudo o que a terra dá, ou seja, aproveitar um bocadinho de ervas aromáticas, de cogumelos silvestres, por aí. Estes produtos nascem em quantidades tão pequenas que, enquanto eu ando num processo de negociação com uma loja biológica ou um hipermercado, o produto acabou», conta. «O Mercado da Ribeira surge como hipótese porque é um sítio lindíssimo que faz todo o sentido recuperar. Depois porque tenho a esperança de que outros produtores biológicos possam ali alojar-se e criar assim um núcleo».
Ana, a colega de Alfredo Cunhal Sendim, já separou o grupo escolar. O momento é de despedida para nós e boas-vindas para os estudantes. Qualquer pessoa que tenha curiosidade de conhecer esta biodiversidade da planície alentejana, pode fazê-lo. Deste modo, o nosso anfitrião explora outro mercado: o turismo.
 

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