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Saber Fazer - «Viver das técnicas artesanais é possível»

No Saber Fazer, uma página na Internet, Alice Bernardo utiliza o vídeo, a fotografia e o texto para documentar as técnicas do artesanato português. A trabalhar, há sapateiros, fiandeiras, tecelãs. A ideia é mostrar que o artesanato é mais do que um atractivo turístico. É possível viver dos antigos saberes passados de geração em geração, reinventando-os e afastando palavras como «pitoresco» e «ultrapassado».

Sara Pelicano; fotos - Saber Fazer | quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

As mãos revelam a idade avançada, já são 85 anos, mas também a dureza de uma vida dedicada à arte de fazer socas. José Leite, em Cabeceiras de Basto, continua a trabalhar todos os dias. Num desses dias, José recebeu a visita de Alice Bernardo, igualmente artesã e sobretudo uma curiosa pelas técnicas ancestrais de produção artesanal. O que descobre no contacto com os artesãos publica num site assim baptizado: Saber Fazer.

«Em ideia, o projecto surgiu em 2005 quando documentei algumas obras de restauro de um edifício classificado como património histórico em que foram utilizadas algumas técnicas artesanais, nomeadamente no restauro de gessos e na pintura de fingidos. Nessa altura tive a oportunidade de observar a execução com pormenor, sempre em contacto próximo com os artesãos, registando as suas “receitas” e truques», conta Alice, natural de Vila Nova de Gaia, mas residente em Guimarães.

Volvidos seis anos, Alice colocou a ideia em prática. «Em 2011 criei a iniciativa, quando comecei a registar e a publicar informação sobre algumas técnicas artesanais, dentro da mesma perspectiva técnica que havia utilizado anteriormente». O registo deste saber fazer antigo é feito com vídeo, fotografia e também texto.

Conversas que Alice verte para o site. Palavras assim tornadas um documento de memórias. Um exemplo: De acordo com José, o artesão das socas, «as peles são cortadas, molhadas e depois ensaboadas para se tornarem mais maleáveis. Depois passa à fase mais demorada em que tem de fixar cuidadosamente a pele à sola, enquanto a molda com a ajuda da forma. É mais rápido dito que feito, claro».

As formas originais foram esculpidas em madeira por ele mesmo, mas como se desgastam, mandou fazer várias cópias, tanto em madeira como em plástico. Depois de moldada e fixa a pele, o senhor José faz dois pequenos cortes triangulares na zona da biqueira, «para garantir que a ponta da soca não vai deformar com o tempo».

Remata todas as peças com uma fita branca de pele, novamente fixa com outra linha de pregos, e enquanto a pele não seca, decora-as com linhas e cruzes - uma ideia sua porque as peças mais bonitas se vendiam melhor na feira.
Ao relato do senhor José, juntam-se outras histórias. As das Mulheres de Bucos que trabalham a lã desde a tosquia até delicadas peças de roupa e decoração, há Fátima Gomes, fiandeira e tecedeira, em Trás-os-Montes e o jovem José Machado, que faz calçado artesanal.

«O principal objectivo do Saber Fazer é divulgar as técnicas de produção artesanais e semi-industriais como meios de produção válidos e necessários no tempo actual e no futuro.

Para isto, os registos que faço não evocam a tradição e o património, mas exploram antes toda uma vertente prática respeitante à técnica e a vertente humana do produtor, demonstrando que este tipo de produção é de facto único e necessário no mundo em que vivemos e para o futuro que nos espera», comenta Alice que é também ela artesã.

Formada em arquitectura, desde 2008 que Alice se dedica à produção artesanal de acessórios de moda que divulga através do site Noussnouss.com. O Saber Fazer é um projecto paralelo com o qual diz ter aprendido «a reconhecer a qualidade de uma boa produção, no que diz respeito a várias técnicas, o que tem sido muito importante para mim».

E acrescenta: «De uma forma mais geral, mas mais profunda, o tempo que dediquei ao projecto provocou também uma grande alteração na forma como vejo o trabalho artesanal no presente e no futuro. Não anseio pela preservação, mas antes por uma evolução contínua através da prática».

Para Alice é preciso combater a ideia de que o artesanal é um mero atractivo turístico. A artesã defende que «é possível viver das técnicas antigas». «Um outro objectivo do Saber Fazer é lutar contra a ideia de que o trabalho artesanal deve ser mantido apenas por respeito à tradição», afirma.

«É possível obter rendimento, mas é preciso abordar o problema da forma correcta. Se este tipo de trabalho for constantemente apresentado num contexto pitoresco, numa espécie de museu vivo representado por personagens que actuam como se vivessem noutro século, dificilmente conseguiremos ver nele algo mais que uma atracção turística».

Alice defende, por isso, que é «preciso levar a sério o trabalho artesanal» para que seja encarado «como algo válido, que o é». Exigência com o que se produz, olhar para os artesãos como produtores com conhecimentos muito especializados e de alta qualidade e identificar as vantagens deste tipo de produção em relação à produção industrial são alguns dos aspectos que Alice considera serem essenciais colocar em prática para tirar proveito do artesanato feito com técnicas ancestrais.

Os artesãos anseiam também por esta mudança de atitude perante a sua arte. Nas conversas que mantém com os artesãos, Alice verifica que «os próprios artesãos vêem-se muitas vezes como os últimos executores de alguns ofícios porque lhes é passada constantemente a ideia de que o seu trabalho é válido apenas como memória viva de antigas tradições. Esta abordagem provoca desânimo nos artesãos que, apesar de apreciarem a atenção, muitas vezes mediática, na realidade não vêem futuro no seu saber fazer, já que não está a ser transmitido a novas gerações que o possam fazer evoluir e crescer».

Alice tem observado que «um determinado ofício tem mais probabilidade de ser apoiado pelas autoridades locais se estiver inserido em alguma iniciativa de dinamização turística da região».

Registar as técnicas e combater esta ideia do artesanato como mero atractivo turístico é o trabalho que Alice Bernardo vai continuar a fazer através do Saber Fazer, um projecto que «gostaria que tivesse o foco cada vez mais voltado para artesãos e unidades de produção com vontade e capacidade de produção real», conclui.
 

  

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