Agricultura - Estrangeiros ultrapassam portugueses nos campos algarvios
No Outono o ritual repete-se todos os anos. A apanha da fruta, da castanha ou do cogumelo é um cenário já habitual no país. Mas, no Algarve, o recrutamento de mão-de-obra nacional está cada vez mais difícil. Segundo relatos dos responsáveis de organizações de produtores locais, os estrangeiros a trabalhar na apanha da fruta e hortícolas nos campos algarvios superam, em muito, os portugueses.
Café Portugal | quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010
O director regional de Agricultura e Pescas do Algarve, Joaquim Castelão Rodrigues, confirma que existe dificuldade em contratar mão-de-obra nacional para o sector agrícola por muitas pessoas se negaram a trabalhar na área.
Também Eduardo Ângelo, presidente da Uniprofrutal, refere que em dez pessoas necessárias para apanhar fruta apenas uma é portuguesa, o que faz com que os estrangeiros representem já mais de metade do total nas explorações agrícolas algarvias.
E Humberto Teixeira, director-geral do grupo Hubel, garante que a maior concorrência não é a de outros sectores, mas sim o «subsídio de emprego por si só», já que a tentativa de recrutamento de pessoas inscritas nos centros de emprego sai quase sempre gorada.
O grupo tem como uma das suas áreas de negócio a produção e comercialização agrícola e, através da Madrefruta, congrega produtores que cultivam desde morangos, framboesas, pêssegos ou melancias a tomates, pepinos ou feijão verde.
Humberto Teixeira acrescenta que mais de metade dos seleccionados se apresentam «com uma postura de desinteresse» e às vezes até ameaçam os potenciais empregadores, «pedindo que não os seleccionem».
«Não existe uma cultura de responsabilidade nos inscritos [no IEFP] que são seleccionados para o trabalho na agricultura», critica, lamentando que o sistema actualmente instituído fomente algumas «vantagens na condição de desempregado».
O mesmo problema acontece com os produtores da Cooperativa Agrícola de Citricultores do Algarve (Cacial), que se vêem obrigados a recorrer a estrangeiros para não perder as produções, diz Horácio Ferreira.
Este responsável salienta que os poucos portugueses que aceitam trabalhar na apanha da fruta são os que mais faltam ao trabalho, o que não acontece com os estrangeiros, havendo muitos que desistem dias depois do começo das campanhas.
«Se não fossem eles [os estrangeiros], nos dias de aperto não sei o que faríamos», sustenta.
A preferência por outras áreas como o turismo, comércio ou serviços, a concorrência” do subsídio de desemprego e o facto de o trabalho no campo ser ainda considerado precário são alguns dos factores que poderão afastar os portugueses.
A dificuldade é tanta que já houve organizações de produtores a ir a Marrocos para recrutar trabalhadores, contudo, a obtenção dos vistos demorou tanto tempo que quando os marroquinos chegaram ao Algarve já a produção tinha ficado perdida.
A maioria dos estrangeiros a trabalhar nos campos algarvios, em permanência ou na época de campanha, são originários de países do leste europeu como a Roménia, Ucrânia ou Bulgária, embora haja também marroquinos e até tailandeses.