Carlos Medeiros refere que os trabalhos «estão bastante adiantados» e garante que a 30 de Março haverá um
dossier de candidatura «muito consistente» do ponto de vista daquilo que são as exigências da UNESCO.
O trabalho que está a ser desenvolvido passa por «muitas contribuições recolhidas» e visa duas coisas: «a primeira é que o Cante é uma manifestação cultural reconhecida pela comunidade como seu património, enquanto elemento de identidade e continuidade, e a segunda que estão criadas as condições para a sua salvaguarda, a manutenção da sua viabilidade, através da investigação, recolha e arquivo de documentação, proteção, promoção, transmissão e revitalização».
O responsável realça que «a UNESCO, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não pretende apenas preservar património cultural que tenha expressão mundial ou internacional. O seu interesse é, sobretudo, preservar o património que represente genuinamente o sentir dos povos e é nisso que estamos concentrados», lembra.
O envolvimento das comunidades, dos grupos e dos indivíduos na salvaguarda do cante, enquanto património cultural imaterial, tem sido um dos grandes objectivos que a candidatura «tem tentado passar. A criação dessa rede de interesse em torno do Cante e da candidatura tem surgido de uma forma natural», revela Carlos Medeiros.

«Se é certo que a iniciativa partiu de Serpa, a verdade é que ela se estende hoje a todo o Alentejo e mesmo ao país. A quase totalidade dos municípios alentejanos apoiam hoje a candidatura e estão prontos a acompanhá-la e contribuir para ela. O mesmo se passa com os grupos corais, que já deram uma demonstração disso mesmo numa grande reunião que fizemos (no início de Janeiro) e abrimos à comunicação social na Casa do Alentejo em Lisboa», adianta.
Essa reunião, vinca, «proporcionou um amplo debate não só sobre as características desta manifestação cultural mas também sobre a forma de a salvaguardar».
«Se alguns questionaram inicialmente o porquê de começar em Serpa, hoje penso que já ninguém terá dúvidas de que teria de começar por algum lado. Se não fosse Serpa a iniciar e estivéssemos à espera do milagre de todos se lembrarem de o fazer ao mesmo tempo, nunca o Cante seria candidato a coisa nenhuma. Hoje estão a surgir, genuína e espontaneamente, manifestações de apoio à candidatura organizadas por grupos corais, designadamente de associações de alentejanos da região de Lisboa que nela se revêm», salienta.
Apoios:
No quadro da Candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, e perante o número crescente de municípios que têm manifestado o seu apoio à candidatura, a Comissão Executiva vai promover no próximo dia 3 de Março, em Serpa, um encontro com autarquias, no sentido de se fazer um ponto de situação, esclarece Carlos Medeiros.
E até agora, a maioria dos municípios onde existem grupos corais de Cante Alentejano já declararam oficialmente o seu apoio à candidatura. Ao todo, são 30 câmaras municipais, 100 Juntas de Freguesia, 28 grupos corais e 122 cantores a nível individual que já declararam oficialmente o apoio a esta candidatura.
Nesta medida, o presidente da Comissão Executiva da Candidatura do Cante refere que «há gente no Porto a cantar o Alentejo mas também em Toronto ou em Caracas e no Barreiro, na Damaia e em muitas localidades da Região de Lisboa onde há comunidades de alentejanos».

«Queremos que todos estejam envolvidos e possam continuar a dar o seu contributo. E só não estarão os que não quiserem. Se a candidatura, em si, tem que ser consistente do ponto de vista científico e delimitar muito bem o que é o Cante, temos que perceber que não é excluindo os que querem e sabem cantar que vamos alargar o âmbito do Cante», sublinha.
Carlos Medeiros faz questão de sublinhar que «algumas pessoas pensam que a candidatura acaba no dia 30 de Março» com a apresentação da mesma, «mas é precisamente nesse dia que ela começa. A 30 de Março é o pontapé de saída e é a partir daí que vamos começar a assistir a uma série de eventos e de manifestações públicas e culturais apoiadas ou diretamente promovidas pela candidatura», informa.
E adianta que estão também a ser preparados diversos estudos e publicações inseridos no compromisso assumido no Plano de Salvaguarda.
Depois da reunião, a 3 de Março, em Serpa, com os municípios que apoiam a candidatura, «fecha-se o ciclo, depois de termos reunido com os grupos culturais e de termos recebido o apoio da Presidência da República, da Assembleia da República e do Governo bem como de muitas outras instituições e personalidades do País».
O impacto na sociedade civil desta iniciativa, revela Carlos Medeiros, «tem sido tremendo e tem extravasado em muito o Alentejo».
A UNESCO veio recentemente alertar para o excesso de candidaturas a património imaterial. Questionado sobre o eventual risco de chumbo que possa existir, Carlos Medeiros, garante ter consciência disso e, também por isso, «considerámos que valeria mais a pena lançar já a candidatura do que esperar».
«À medida que o tempo passa, haverá mais candidatos e o crivo e a exigência será necessariamente maior. Por outro lado, não nos podemos esquecer que esta candidatura nasce de um desafio lançado pelo Embaixador Andresen Guimarães, na altura Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, o que significa que pessoas muito próximas do centro de decisão consideram que seria esta a oportunidade. Se existe o risco de falhar? Claro que existe. Em tudo na vida temos que saber assumir os riscos», explica.
Com esta candidatura, realça, «estão a ser dados passos irreversíveis quanto ao seu estudo e à sua salvaguarda, além do reconhecimento público que é já hoje diferente».
«A candidatura deixou de ser um sonho de alguns para ser um desafio coletivo, multiplicando-se as manifestações espontâneas de apoio à candidatura. Essa é a principal evolução que saúdo», considera Carlos Medeiros.
De recordar ainda que do documento que será entregue a 30 de Março na UNESCO, em Paris, fazem parte elementos como a selecção de dez imagens representativas do Cante Alentejano e a produção de um filme de dez minutos.
Augusto Brázio e Sérgio Tréfaut, fotógrafo e realizador escolhidos para executar estes documentos, já apresentaram as primeiras versões dos mesmos e ouviram da Comissão Científica da Candidatura, contributos para os seus trabalhos que se encontram já em fase final de realização.
A candidatura é promovida pela Confraria do Cante Alentejano e à qual se associaram a Casa do Alentejo e a Associação MODA, como co-promotoras, o INAlentejo e o patrocínio da Câmara Municipal de Serpa e do Turismo do Alentejo.