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Ponte de Lima - A vila que recusa ser cidade

É Outubro. O Outono esgueira-se no calendário. O ar ainda retém a frescura de uma noite que já pediu manta. Da paisagem, em tons de transição, expira um burburinho surdo de bulício matinal. Espreguiçam os povoados que salpicam o vale.

Café Portugal | sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Das alturas, o vislumbre sobre o Vale do Lima, acomodado entre montes, compõe um cenário de prados, milheirais, vinhas, bosques. Um cenário que também sobe as primeiras alturas de serras como a de Arga, do Formigoso, de Antelas.

Para Oeste, o horizonte difuso de neblinas entrega uma nesga de mar. Tomadas à distância, as ondas parecem viver encravadas nas elevações próximo à capital de distrito, Viana do Castelo. O Atlântico é aqui pequeno. Este reino é das montanhas, dos vales, dos rios.

O interior minhoto é exuberância de verdes, tumulto nos relevos, abundante nas águas. É também riqueza humana, nos usos e no estar, na sua multidão de casais dispersos na paisagem, de capelinhas alcantiladas, de património inesgotável. Ponte de Lima é síntese desta alma minhota.

Nas margens do Lima:
Ponte de Lima, capital de concelho, ganhou o estatuto de vila mais antiga de Portugal. Recusa-se a ser cidade. O concelho conta uma população na casa dos 45 mil habitantes.

A abordagem a Ponte de Lima faz-se pela margem direita do rio, oposta à localidade. Compomos, assim, um cenário que enquadra o centro histórico da vila. Longe, para jusante, avistamos a ponte nova antecedida pela vereda de gigantescos plátanos, o Jardim ao longo da Avenida D. Luís Filipe, verdadeira muralha verde rente ao rio.
Liga-nos à outra margem a grande ponte medieval com os seus 15 arcos, quatro dos quais, os primordiais, romanos, testemunhando a presença milenar do império mediterrânico por estas bandas. O Lima era à época o mitológico Lethes, uma fronteira do esquecimento para quem ousasse a travessia. Esta fez-se, o Lima foi transposto e descoberto.

O rio nasce em Talarinho, Espanha, nos contrafortes da serra de são Mamede. Engrossa rapidamente, cresce em rápidos que aproveitam os declives do curso que termina na foz do Vez. Domado, o rio acaba por encontrar descanso em grandes albufeiras e começa a parte mais calma do percurso, até Viana do Castelo, onde encontra o Atlântico. A sua serenidade faz jus às palavras de Diogo Bernardes, autor das Flores do Lima: «O rio que verás tão sossegado / Que te parecerá que se arrepende / De levar a água doce ao mar salgado» .

Calcorrear o centro da vila:
Há muito que a grande ponte se tornou imagem de marca da vila abrindo um prumo em pedra escura, directo ao coração da localidade. Percorremos aquelas centenas de metros; sobre um rio espelhando um verde profundo e sereno, domado pelas barragens a montante. O Lima devolve-nos um reflexo plácido da localidade, com o seu casario minhoto feito de granito, de xisto, de paredes alvas, de janelas amplas e grandes beirais, fazendo-nos crer na intemporalidade.

Transposta a velha ponte, abre-se o Largo de Camões. O Chafariz Nobre jorra generoso nas águas. Sabe-se que o mais antigo núcleo da vila nasceu, ali, junto à embocadura da ponte. É dia de Feira e, nas tendinhas os vendedores trajam a rigor, mais para visitante ver. O traje minhoto é rico e inclui o lenço amarelo, de franjas; o corpete branco, por vezes com atacadores; a saia rodada, longa, e com listas vermelhas; rico nos adornos, pois verdadeiro mostruário de ourivesaria feito de cordões, grandes corações de filigrana, cruzes de ouro maciço.
Arma-se a venda, exibe-se a criação, assam-se as chouriças, las
ca-se o presunto, acompanha-se com um pedaço de broa e come-se, ali mesmo, numa sombra reconfortante. Oferecem-nos flores a troco de alguns cêntimos. «Para a sua senhora», ouvimos de uma jovem de olhar cor de mel.

O percurso turístico pedonal está sinalizado com placas, orientando aos principais monumentos. A artéria marginal ao rio, o concorrido Passeio 25 de Abril, povoa-se com comércio, algumas mercearias, fruta e verduras em exposição. Um odor que tenta para as ameixas, as nêsperas, os melões, um não acabar de produtos da terra. Toca a expressão de uma vendedora de idade avançada que timidamente propõe: «umas maçãs bonitas». Como resistir à candura? Comprar-se um pote de mel e uma broa generosa.

De volta ao caminho, a Torre de São Paulo (século XIV), maciça, outrora integrando a estrutura amuralhada da vila. Na pedra assinalam-se marcas das grandes cheias do Lima. De tragédias que no passado engoliram a parte baixa da localidade.

Continua o percurso. Primeiro a Igreja da Misericórdia para, depois, tomarmos a larga rua Cardeal Saraiva que sobe até à Praça da República. É inevitável a visita à Igreja Matriz, templo que sobrepõe vários estilos arquitectónicos. Ali está o românico, o gótico, o neoclássico. Fora, apreciamos o painel de azulejos (de 1940) comemorativo da Independência de 1640 assinado pelo artista Jorge Colaço.

Antes da Praça da República flexão para a Rua do Souto. Mais uma vez a delicadeza das sacadas floridas, as paredes num jogo equilibrado, de fachadas nuns pontos pintadas de branco, noutros graníticas, noutros ainda, fazendo uso do xisto. Há harmonia, há frescura nos recantos, há grandes janelas, há beirais amplos.
Pela Rua do Souto chega-se à antiga Judiaria e, desta, franqueando um arco, contorna-se a Torre da Cadeia Velha. Em frente corre o Lima.
Termina a volta no edifício do Paço do Marquês, do século XV. A Antiga Alcaidaria-Mor funciona actualmente como posto de informação turista e, simultaneamente, mostra e venda de artesanato. Incorpora, ainda, um núcleo museológico.

Vila jardim:
Nova incursão à beira Lima, desta vez pelo grande areal frente à vila que, nas horas de maior movimento, se torna parque automóvel. Um cenário bem diferente do que aqui se vive em Setembro por altura das “Feiras Novas”, uma das maiores romarias populares do Alto Minho. São três dias e noites de multidão, de interminável horizonte de tendas no areal. Ponte de Lima é pólo de atracção de gentes próximas, mas também dos que chegam de longe. Há música, há luz, ouvem-se regateios, compra-se um pouco de tudo: linhos e atoalhados, barros e porcelanas, ferragens, alfaias agrícolas, pipos e aduelas; come-se e petisca-se; baila-se. A festa é pagã mas é, também, religiosa. Momento alto é a Procissão de Nossa Senhora das Dores, acompanhada pelo repique dos sinos.

Continuando à beira Lima, de novo do lado oposto ao centro histórico, o Parque do Arnado. Este espaço veio aproveitar os terrenos e infra-estruturas de uma antiga quinta com o mesmo nome. Trata-se de um grande jardim temático, onde cabem muitas formas de pensar e conceber os jardins em diferentes épocas. Há o espaço romano, com a fonte rodeada pelo pátio em pedra; o grego com sebes em buxo; o renascentista com construção geométrica; o barroco, com a arte de talhar as sebes. É uma viagem pela história que se faz sob veredas cobertas pela vinha em latada e onde se descobrem as estruturas da quinta, como o sistema de rega com nora e tanques e regueiros em granito. Há, ainda, um centro rural, uma experiência agrícola, onde funciona a cozinha e o forno de pão.

Não muito longe do Parque do Arnado, nova surpresa, também sob a forma de jardim. Chama-se Festival Internacional de Jardins, um espaço de criação, onde arquitectos paisagistas expõem, sazonalmente, a sua visão do espaço público, “encenando” jardins temáticos.
Ponte de Lima, sem deixar de ser vila, reinventa-se.


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