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Abela - Os dias calmos na sombra da laranjeira

No largo da aldeia de Abela, freguesia de Santiago do Cacém, os bancos de jardim recebem a sombra das laranjeiras plantadas em canteiros. É aqui que um grupo de homens revive a juventude, vê os visitantes a entrar e sair do Museu Rural, próximo, e assistem ao passar de um tempo que traz poucas novidades.

Sara Pelicano | terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

O Sol brilha baixo na manhã fria de Dezembro. O silêncio da aldeia de Abela, despovoada da alegria juvenil, é quebrado pela chegada de visitantes. O Museu Rural é a atracção dos que chegam de fora, tornando-se eles mesmo motivo de conversa.

«De onde virão?»; «Quem são?»; «Como vieram aqui parar?». As perguntas surgem entre o grupo de amigos sentado no Largo 5 de Outubro, na Abela, freguesia de Santiago do Cacém. Sentado em bancos de jardim dispostos frente às habitações.

O mais falador é Manuel Rodrigo. Aos 87 anos a coluna já cedeu à força da gravidade e encurvou. É apoiado à bengala de que senta e é a esta fiel amiga que recorre para caminhar.

Os filhos partiram há muito para os grandes centros urbanos, o mais próximo é Sines, onde trabalham nas refinarias de petróleo. É esta a informação que dá, quando encetamos conversa. «E na juventude o que fazia por aqui?» «Trabalhava em Alvalade [outra freguesia de Santiago do Cacém]. Tinha uma banca de fruta no mercado», conta, entusiasmado. Este estado de espírito é confirmado pelo próprio quando nos revela: «Eu gosto é disto, de falar com as pessoas. Isto é que é bom!».

Os amigos, mais tímidos, não reagem e a conversa centra-se em Manuel Rodrigo. «Aos onze anos fui para Aljustrel. Foi lá que comecei a vender a fruta. Depois ainda passei pela tropa e regressei para aqui», diz e remata: «Agora é aqui que passo tempo».

A freguesia não conta mais do que 1053 habitantes, o que leva Manuel Rodrigues de imediato a interpelar: «Como é que as pessoas podem viver aqui. Não há empresas?». A pergunta não requer resposta, mas exploramos o assunto. Ficamos então a saber que o médico aparece duas vezes por semana e a única farmácia da localidade prepara-se para fechar portas e mudar-se para Vila Nova de Santo André, que dista cerca de 25 quilómetros.

A visita ao Museu Rural termina. Os visitantes voltam à rua e pousam o olhar nas casas brancas, de rés-do-chão. O autocarro que os trouxe já começa a andar. Manuel Rodrigues regressa «aos dias calmos», como se refere ao quotidiano que acompanha a sua velhice.

Comentários Comentários (3)
terça-feira, 24 de Agosto de 2010 | Luís do Ó
Recordações
Recordo com muita saudade os tempos em que acompanhava a minha mãe à escola onde era professora. Eu era bastante pequeno, ainda nem idade tinha para andar na Primária, porém, lembro-me perfeitamente da escola cheia de crianças, das brincadeiras no pátio e das correrias pela terra. Lembro-me, ainda, da cantina, dos bancos corridos, dos cheiros e tropelias daqueles tempos. Cada vez que entro na Abela recordo-me disto tudo e dos amigos que depois de adultos permanecem a viver na sua terra. Obrigado pela descrição que fez e das memórias que a mesma originou.
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