O cantar é divertido
Olha entre dois amigos
O cantar é divertido
Eu prometi a esta gente
E o prometido é devido
Ai Jesus que estou perdido
Mas hei-de ser encontrado
Mas hei-de ser encontrado
Porque não prometi nada e já estou a ser enganado
Estou cá a teu lado e vou te dizer agora
Com tocadores na terra há quem vai pagar fora
(Valter) Não perdes pela demora
Não perdes pela demora
Para acabar com o «zum zum»
Zé Manel vieste tu porque não havia mais nenhum
Canto de noite e de dia
Já te estas a armar em lambão
Canto de noite e de dia
Canto de noite e de dia
E podes crer que é verdade
Que aqui ninguém te cria

Os versos saem no momento. É o improviso que caracteriza o canto ao desafio. Enquanto a imaginação permitir vão desenrolando-se críticas pessoais e sociais. É uma sátira acompanhada pelos acordeões, um dos primeiros instrumentos que Valter São Martins aprendeu a tocar. O pai já tocava no rancho folclórico de Lindoso. Foi através dele que ganhou o gosto pela música tradicional. «Comecei em pequeno a dançar e tocar castanholas», conta Valter. Aos dez anos, espontaneamente começou a fazer as primeiras rimas, lançando desafios aos adversários que surgiam. No canto ao desafio, há uma pessoa que lança uma quadra, normalmente focando aspectos da vida da vila ou do seu adversário, e o outro responde, sem nunca esquecer a picardia e a rima. «Eu canto desafios profanos, mas também os há religiosos», acrescenta Valter, ajeitando o acordeão que carrega consigo.
Os primeiros passos deu-os no rancho folclórico da terra onde é natural, Lindoso, Alto Minho. Mas aqui as perspectivas de crescimento eram escassas e a voz levou-o até ao Rancho Folclórico e Etnográfico de Ponte da Barca, a 25 quilómetros. «Isto é um gosto, mas é também lucrativo porque não é para todos. O desafio é um dom como a poesia», explica Valter, acrescentado: «nunca sei o que vai sair quando começo a cantar».
Orgulhoso por envergar o traje tradicional. Calça e camisa de linho com cinto e casaco preto, Valter São Martins fala dos projectos futuros. A jovem voz do cantar ao desafio do Alto Minho pondera deixar esta actividade, que, actualmente, o ocupa quase a cem por cento. «Estou a pensar fazer um curso de hotelaria», afirma. «No Lindoso não há nada, além de saúde», brinca para de imediato concluir: «Se for para fora estudar, não posso voltar porque não há condições. Aqui não há investimento».
A voz está pesarosa ao confessar que poderá ter de abandonar a sua terra e comenta «não haver muitos jovens no folclore». Valter é um dos poucos que se dedica às tradições.