Pode consumir-se apenas a cabeça ou a rama, cozidos, em sopa ou como acompanhamento. Considerada uma planta da horta, de fácil cultivo, a verdade é que não se sabe ao certo quando se começou a consumir o grelo de nabo, um alimento comum entre gregos e romanos e há muito tornado popular na Europa Setentrional.
Em Portugal há quem tenha um carinho especial por este alimento. Falamos da
Confraria Gastronómica Nabos e Companhia com o objectivo de promover os grelos de nabo da aldeia dos Carapelhos, no concelho de Mira (distrito de Coimbra), bem como divulgar a gastronomia Gândaresa associada aquele alimento.
Fábio Ventura, grão-mestre da Confraria, explica ao
Café Portugal as razões que estão na origem deste projecto e que coloca o grelo de nabo como um verdadeiro rei da gastronomia Gândaresa.
Fábio Ventura começa por dizer que a constituição da Confraria, em 2000, resultou da «força de um grupo de amigos que ama as suas origens». «Constituir uma Confraria foi forma de fortalecer mais os laços de amizade entre convivas e em simultâneo preservar e fazer-se guardiões de saberes que têm que ser transmitidos às gerações vindouras», refere.
Realça que a Confraria «é para todos um motivo de grande orgulho» já que a grande maioria dos membros efectivos são da aldeia de Carapelhos ou de lugares vizinhos. «A participação nas actividades da Confraria é uma causa maior na vida de cada qual. Há, depois, também os laços estreitos de relacionamento quotidianos entre todos, é muito fácil reunir as pessoas e acontece com frequência que assuntos da associação sejam motivo de conversa diária. Está portanto, sempre presente, o assunto confraria na interacção entre amigos», afirma, acrescentando que «tudo isto faz com que a mobilização seja evidente e ninguém se nega a trabalhar nas tarefas que lhe são atribuídas».

Fábio Ventura salienta que os grelos de nabo são um vegetal «muito apreciado» na gastronomia tradicional portuguesa. Tudo, porque «são muito polivalentes e o seu sabor é inconfundível». «Em tempos idos, no início do século XX, os meses de Inverno eram tempos muito duros. Os campos da Gândara não tinham préstimo pela sua infertilidade. O engenho do agricultor ensaiou lançar a semente à terra. A geologia, terrenos arenosos e o microclima muito húmido fizeram o resto. A tarefa era fácil não carecia de meios mecânicos sofisticados e era algo que a mulher podia fazer, libertando o homem para outras tarefas mais esforçadas», recorda. E, prossegue, a conjugação destes factores potenciou o cultivo dos grelos em massa.
Além disso, a base da alimentação vinha do que o campo dava. Nascia então «um casamento entre o rei dos vegetais e todos os outros produtos que já eram presença à mesa». «Os grelos são, sem dúvida, um produto de proa na gastronomia gandaresa», sublinha.
Apanha sem auxílio de máquinas
Questionado sobre o peso da produção anual dos grelos de nabo, Fábio Ventura garante que «ninguém pode aferir com rigor a produção anual». «Apenas se pode estimar. Ainda hoje o cultivo é feito do modo tradicional. Não há grandes produtores nem indústrias de processamento. O volume é feito pelo conjunto de pequenos agricultores que fazem a sua produção particular nos seus campos e vendem diariamente, os grelos, à porta de casa aos comerciantes que os irão distribuir pelo mercado nacional e internacional. Nos dias de hoje há grelos todo o ano, naturalmente com mais intensidade nos meses de Inverno», realça.
E recorda que «todos os dias se carregam vários camiões para os mercados abastecedores de Lisboa, Porto e Coimbra e duas vezes por semana são enviados grelos para França, destinados ao mercado da saudade». «Todos os grelos que saem dos Carapelhos vão no seu estado natural e seguem acondicionados em molhos atados manualmente. A apanha é toda feita sem o auxílio de máquinas», afirma.
O Grão Mestre da Confraria faz apenas referência a um jornal de Cantanhede, concelho vizinho, feita por um correspondente dos Carapelhos, datada de 1958, e que revela que «nesse ano a produção foi boa e juntaram-se 500 000 molhos de grelos».
Contudo, avança que actualmente, por ano, «sai bem mais de um milhão de molhos de grelos dos Carapelhos». Na aldeia, 80% das famílias dependem directa ou indirectamente do cultivo dos grelos de nabo. «O peso na economia local é enormíssimo», considera Fábio Ventura.

Mas, afinal, qual a importância deste produto na região? À pergunta, Fábio Ventura responde: "os grelos de nabo são, para nós gandareses, o mais saboroso vegetal da gastronomia portuguesa. Garanto, que se por Portugal fora provarem os Grelos de Nabo dos Carapelhos, cozidos três vezes, jamais os esquecerão. Cozidos três vezes sim. Há uma expressão local que diz que os grelos para serem bons têm que ser cozidos três vezes – uma vez com sede (referência aos meses de Setembro ainda secos quando eram feitas as primeiras sementeiras), outra vez com geada (referência às madrugadas gélidas de Inverno – o vegetal resiste bem à geada e perde acidez) e a terceira vez para comer».
E relembra que os grelos são, de um modo geral, conhecidos e consumidos em todo o País. «Evidente que na Gândara e, em particular nos Carapelhos, é produto de consumo quotidiano», explica, frisando que a distribuição é feita com mais intensidade no norte do País e que Lisboa é alimentada diariamente com grelos dos Carapelhos através do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa.
Recorde-se que a zona da Gândara é uma sub-região delimitada a norte pela Ria de Aveiro e a sul pelo Baixo Mondego. Vai do mar à Bairrada. Fábio Ventura reconhece, no entanto, que «não é muito conhecida em Portugal». Mas, a verdade é que se trata de uma região de areias onde era difícil vingar só com o sustento do campo.
«Cultura gandaresa talhada pelo vento e amanhar duro da terra»
«A cultura gandaresa nasceu talhada pelo vento a maresia e pelo amanhar duro da terra. O porco tinha que ser racionado para todo o ano. Tudo o que o mar dava tinha que se arranjar modo de confeccionar. É pois um saber que nasce da arte de inventar o que comer», diz.
E acrescenta: «aqui se fundem sabores de mar e terra: as sardinhas na telha; as batatas na areia; o pitau de raia são iguarias que só aqui se podem provar. Há depois as influências vizinhas, a apanha do moliço na Ria de Aveiro, elemento essencial para fertilizar os campos da Gândara, a ida forçada dos homens para os Bacalhoeiros, a vizinhança da Bairrada. Todos estes factores conjugam o que é o património gastronómico Gandarês».
Sobre a razão pela qual os grelos de Nabo dos Carapelhos ainda não cegou à certificação, Fábio Ventura sustenta que a ideia «foi uma das primeiras pretensões da Confraria».
«Constituímos uma associação de produtores e demos os primeiros passos. Quando os pequenos agricultores perceberam que haveria a necessidade de haver registos fiscais e outras obrigações legais, vimos gorada a possibilidade de levar a cabo tal ambição. Tudo continuou na mesma. Cada ano se produzem mais grelos e sempre do mesmo modo tradicional. A qualidade está assegurada, é certo. É um saber popular que o garante», salienta.
Todavia, a certificação que existe hoje é unicamente a do palato. «Estou certo que mais cedo ou mais tarde o selo de certificação será uma realidade», diz, convicto.
Por fim, refere que a Confraria dos Nabos vai continuar a «fazer-se à estrada regularmente para promover a terra e os grelos». «A nossa casa será sempre um templo gastronómico gandarês aberto ao mundo», conclui.
Recorde-se que decorre de 21 a 23 de Maio, nos Carapelhos, a VI Feira dos Grelos, organizada pela Confraria em parceria com a Câmara de Mira, e cujo objectivo é salientar a importância do grelo na gastronomia gandaresa.
Este ano a Pescanova associou-se à Confraria e cedeu o primeiro pregado da unidade de Aquicultura instalada na Praia de Mira, onde o chefe Luís Lavrador, cozinheiro da Selecção A, e um filho da terra, desenvolveu uma receita que irá ser confeccionada especialmente para o evento.