Douro vinhateiro - Da Régua à Pesqueira empurrados pelo Outono
Um relato em imagens de um Douro em momento de transição; na fronteira entre o estio, severo, e o Outono, apaziguador.
Café Portugal | quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009
«Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedos […] Para além outros socalcos, de um verde pálido de reseda, com oliveiras apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abundância do azul».
O cenário inspira a Jacinto, personagem de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, um comentário: «- O Douro, hem?... É interessante, tem grandeza». A paisagem duriense que, neste século XXI, se desenha a partir da estrada, parece transpor-se incólume da prosa de Eça. Aquilo que Jacinto vê na viagem de comboio que o traz desde França fixa-se, volvidos mais de cem anos, na paisagem transbordante.
Entramos no cenário duriense pela Régua e qualquer dúvida sobre a intemporalidade, originalidade e grandeza do lugar dissipa-se. Sob o arco da descomunal ponte, as arribas carregadas de Outono do Douro revelam a relação indissolúvel entre o natural e o humano. Para o Douro terá havido um tempo antes do Homem, de paisagens primordiais. Hoje, olhando para aquele suceder geográfico encavalitado em patamares de xisto, orlados por incontáveis fiadas de vinha, não cremos outro destino para aquelas margens senão aquele.
Este é um relato visual de um Douro em momento de transição; na fronteira entre o estio, duro e o Outono, apaziguador. Um Douro de cachos maduros pendentes, submissos ao seu peso; de romarias de vindima; de braçadas de parra acobreada, rendendo o verde viçoso do Verão a Outubro. Subindo o curso do rio, volteamos nesta galeria, as curvas do Douro Médio entre a Régua e de São João da Pesqueira.