Uma das portas da fortificação convida a entrar, ouvir profecias e conhecer as vivências judaicas. Em breve será tempo para a história. Antes, a conquista é visual; a primeira fortaleza que se nos depara é natural, um verdadeiro prumo em direcção ao céu. A sequóia gigante conquista o olhar e os visitantes para o interior do Jardim Municipal de Trancoso, criado em 1886 e classificado como arvoredo de interesse público. A sequóia, uma das maiores espécies arbóreas, é cartão-de-visita do jardim, com mais de dois hectares, acolhendo árvores de grande porte. A nossa estrela, a sequóia pode atingir os 85 metros de altura e cinco a sete metros de diâmetro. No alto, as folhas semelhantes às de um pinheiro, estendem-se ao longo dos ramos, construindo um grande chapéu (diz-nos a imaginação).
Descobrir Trancoso
O jardim terá sido construídos para «abrigar Trancoso dos ventos que caracterizam a região», como nos explica, quase em jeito de segredo local, a técnica de turismo da Câmara Municipal, Júlia Rito. As razões de criação do jardim parecem não ser concretas, mas certa é a harmonia do espaço que permite passeios pelos trilhos marcados, acompanhados pelos raios de sol matinal que, timidamente, atravessam a vegetação.
O passeio refrescante pelo espaço verde serve-nos de preambulo ao património e à história, no ponto em que ela se confunde com o mito. Pelas Portas d’El Rei, franqueamos as idades antigas de Trancoso e encetamos, um passo domingueiro, pela rua da Corredoura. Como promessa dois encontros. Primeiro com o sapateiro de profissão e profeta por natureza: Bandarra. Depois, um caminho pelas marcas da

comunidade judaica que outrora terá ocupado uma parte da actual zona histórica. Trancoso é terra antiga que na época medieval foi ponto estratégico para a reconquista cristã.
Deixamos, então, a rua da Corredoura por uns momentos para conhecer o mito, Bandarra, imortalizado em estátua frente ao edifício da Câmara Municipal. O local tomou-se de romarias para observar o sapateiro que, por profetizar a história de Portugal, acabou perseguido pela Inquisição, corria o século XVI. Pelas palavras de Fernando Pessoa se diz do profeta: «O futuro de Portugal – que não calculo mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra».
Pelas ruas empedradas de Trancoso, as conversas retornam ao jardim. Júlia Rito, ainda na peugada do vento (ele é conversa e presença recorrente por estas bandas) acrescenta: «no alto dos seus 900 metros, a cidade fortificada convida o vento a assobiar entre as ruas e a correr apressado deixando no rasto algum frio». A cidade da Beira Alta entra ainda nos livros de história por ter sido o local de casamento de D. Dinis, em 1282, com a rainha Santa Isabel. Rumamos agora para o castelo.

As casas de pedra da cidade beirã constroem um dédalo de ruas estreitas compondo o centro histórico. Ai viveu uma importante comunidade judaica perseguida pela Inquisição nos séculos XV e XVI. Uma comunidade que terá atingido os 500 habitantes, num total de cerca de mil trancosenses. Hoje, a presença judaica mantêm-se, entre outras manifestações, impressa na pedra. No casco antigo de Trancoso contam-se 130 marcas da vivencia judaica na localidade. A mais visível é a recorrente cruz cravada na pedra junto da porta principal das habitações. A cruz marcava a casa judia como convertida ao cristianismo. Contudo, estes cristãos-novos desenhavam na base deste símbolo cristão um triângulo. O símbolo servia de comunicação entre a comunidade judaica, como forma de, entre si, que sendo na aparência cristãos, para lá da porta, na intimidade do lar, professavam o judaísmo.
A presença ancestral da comunidade judaica terá, em breve, um Centro de Interpretação Judaico Isaac Cardoso. O local para a estrutura já se encontra atribuído, no largo junto ao poço do Mestre, que dá nome à rua. O centro tem por objectivo a valorização, o registo e promoção de diversos elementos ligados à cultura judaica. Um investimento de 1,2 milhões de euros que visa proporcionar um local de culto para a comunidade judaica espalhada pelo mundo.

Rumo ao Castelo e ao almoço
À medida que nos aproximamos do Castelo, as ruas tornam-se ainda mais estreitas. A pedra árida sede, aqui e ali, ao colorido de canteiros floridos. No ar paira um odor culinário. A hora do almoço aproxima-se.
Surge, imponente, o Castelo. A visita não é, contudo, possível. «Estamos a requalificar o Castelo», explica Júlia. «Vamos construir um miradouro virtual na torre de menagem, testemunho dos árabes, que vai estar ligado ao planalto de São Marcos. Aqui se travou a batalha de São Marcos, entre portugueses e castelhanos. Os portugueses saíram vitoriosos e reza a lenda que colocaram os invasores a pão e laranjas». O facto mantém-se até aos dias de hoje e todos os dias 29 de Maio, feriado municipal, a câmara distribui, em jeito de celebração, pão e laranjas pela população. A nossa anfitriã acrescenta, ainda, que «depois das obras, o castelo vai ficar mais funcional. Até aqui servia apenas para ver a paisagem. Do alto da torre vê-se Espanha».
A manhã já vai longa e a gastronomia local começa a atrair curiosidades. Regressamos às ruas onde a inquisição perseguiu judeus; as ruas palco de batalhas sangrentas. A luta hoje será mais pacífica, de faca e garfo em torno da cozinha local. Vamos conhecer, e provar, iguarias à mesa do restaurante Área Benta. O cozido à portuguesa, vitela com sabor a vinho tinto e arroz fazem água na boca. A mesa farta não matou apetites para sobremesa: leite-creme, arroz doce e requeijão com doce de abóbora.

Antes da despedida, é tempo de parar na loja de recordações na Praça D. Dinis e marcar o momento com uma sardinha doce. A iguaria é conventual, sai da terra e não do mar, e terá sido confeccionada originalmente pelas mãos das freiras do Convento de Santa Clara.