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O passado não se esconde nas ruas de Trancoso

Ao longe, no final da rua empedrada, revelam-se as muralhas do casco antigo, fortificado, de Trancoso. Um quilómetro de parede, rude, marcada pelo tempo, circunvalando a localidade. Trancoso é cidade, embora com o estatuto de «Aldeia Histórica de Portugal». Uma das peculiaridades que nos deixam de espantar, depois de conhecer um pouco melhor esta terra do distrito da Guarda, fincada nas serranias beirãs, a 900 metros de altitude.

Sara Pelicano | quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Uma das portas da fortificação convida a entrar, ouvir profecias e conhecer as vivências judaicas. Em breve será tempo para a história. Antes, a conquista é visual; a primeira fortaleza que se nos depara é natural, um verdadeiro prumo em direcção ao céu. A sequóia gigante conquista o olhar e os visitantes para o interior do Jardim Municipal de Trancoso, criado em 1886 e classificado como arvoredo de interesse público. A sequóia, uma das maiores espécies arbóreas, é cartão-de-visita do jardim, com mais de dois hectares, acolhendo árvores de grande porte. A nossa estrela, a sequóia pode atingir os 85 metros de altura e cinco a sete metros de diâmetro. No alto, as folhas semelhantes às de um pinheiro, estendem-se ao longo dos ramos, construindo um grande chapéu (diz-nos a imaginação).

Descobrir Trancoso
O jardim terá sido construídos para «abrigar Trancoso dos ventos que caracterizam a região», como nos explica, quase em jeito de segredo local, a técnica de turismo da Câmara Municipal, Júlia Rito. As razões de criação do jardim parecem não ser concretas, mas certa é a harmonia do espaço que permite passeios pelos trilhos marcados, acompanhados pelos raios de sol matinal que, timidamente, atravessam a vegetação.
O passeio refrescante pelo espaço verde serve-nos de preambulo ao património e à história, no ponto em que ela se confunde com o mito. Pelas Portas d’El Rei, franqueamos as idades antigas de Trancoso e encetamos, um passo domingueiro, pela rua da Corredoura. Como promessa dois encontros. Primeiro com o sapateiro de profissão e profeta por natureza: Bandarra. Depois, um caminho pelas marcas da comunidade judaica que outrora terá ocupado uma parte da actual zona histórica. Trancoso é terra antiga que na época medieval foi ponto estratégico para a reconquista cristã.
Deixamos, então, a rua da Corredoura por uns momentos para conhecer o mito, Bandarra, imortalizado em estátua frente ao edifício da Câmara Municipal. O local tomou-se de romarias para observar o sapateiro que, por profetizar a história de Portugal, acabou perseguido pela Inquisição, corria o século XVI. Pelas palavras de Fernando Pessoa se diz do profeta: «O futuro de Portugal – que não calculo mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra».

Pelas ruas empedradas de Trancoso, as conversas retornam ao jardim. Júlia Rito, ainda na peugada do vento (ele é conversa e presença recorrente por estas bandas) acrescenta: «no alto dos seus 900 metros, a cidade fortificada convida o vento a assobiar entre as ruas e a correr apressado deixando no rasto algum frio». A cidade da Beira Alta entra ainda nos livros de história por ter sido o local de casamento de D. Dinis, em 1282, com a rainha Santa Isabel. Rumamos agora para o castelo.

As casas de pedra da cidade beirã constroem um dédalo de ruas estreitas compondo o centro histórico. Ai viveu uma importante comunidade judaica perseguida pela Inquisição nos séculos XV e XVI. Uma comunidade que terá atingido os 500 habitantes, num total de cerca de mil trancosenses. Hoje, a presença judaica mantêm-se, entre outras manifestações, impressa na pedra. No casco antigo de Trancoso contam-se 130 marcas da vivencia judaica na localidade. A mais visível é a recorrente cruz cravada na pedra junto da porta principal das habitações. A cruz marcava a casa judia como convertida ao cristianismo. Contudo, estes cristãos-novos desenhavam na base deste símbolo cristão um triângulo. O símbolo servia de comunicação entre a comunidade judaica, como forma de, entre si, que sendo na aparência cristãos, para lá da porta, na intimidade do lar, professavam o judaísmo.

A presença ancestral da comunidade judaica terá, em breve, um Centro de Interpretação Judaico Isaac Cardoso. O local para a estrutura já se encontra atribuído, no largo junto ao poço do Mestre, que dá nome à rua. O centro tem por objectivo a valorização, o registo e promoção de diversos elementos ligados à cultura judaica. Um investimento de 1,2 milhões de euros que visa proporcionar um local de culto para a comunidade judaica espalhada pelo mundo.

Rumo ao Castelo e ao almoço

À medida que nos aproximamos do Castelo, as ruas tornam-se ainda mais estreitas. A pedra árida sede, aqui e ali, ao colorido de canteiros floridos. No ar paira um odor culinário. A hora do almoço aproxima-se.
Surge, imponente, o Castelo. A visita não é, contudo, possível. «Estamos a requalificar o Castelo», explica Júlia. «Vamos construir um miradouro virtual na torre de menagem, testemunho dos árabes, que vai estar ligado ao planalto de São Marcos. Aqui se travou a batalha de São Marcos, entre portugueses e castelhanos. Os portugueses saíram vitoriosos e reza a lenda que colocaram os invasores a pão e laranjas». O facto mantém-se até aos dias de hoje e todos os dias 29 de Maio, feriado municipal, a câmara distribui, em jeito de celebração, pão e laranjas pela população. A nossa anfitriã acrescenta, ainda, que «depois das obras, o castelo vai ficar mais funcional. Até aqui servia apenas para ver a paisagem. Do alto da torre vê-se Espanha».

A manhã já vai longa e a gastronomia local começa a atrair curiosidades. Regressamos às ruas onde a inquisição perseguiu judeus; as ruas palco de batalhas sangrentas. A luta hoje será mais pacífica, de faca e garfo em torno da cozinha local. Vamos conhecer, e provar, iguarias à mesa do restaurante Área Benta. O cozido à portuguesa, vitela com sabor a vinho tinto e arroz fazem água na boca. A mesa farta não matou apetites para sobremesa: leite-creme, arroz doce e requeijão com doce de abóbora.

Antes da despedida, é tempo de parar na loja de recordações na Praça D. Dinis e marcar o momento com uma sardinha doce. A iguaria é conventual, sai da terra e não do mar, e terá sido confeccionada originalmente pelas mãos das freiras do Convento de Santa Clara.

Comentários Comentários (1)
quinta-feira, 11 de Junho de 2009 | Paula
Uma linda Aldeia Histórica, com particularidades muito especificas que retrata a Região Centro, é de facto uma terra de um forte potencial turístico. Só lamento que os principais actores da arena local, não entendem que tipo de turismo esta terra pode oferecer, muito menos se encontram sensibilizados para a questão turismo e desenvolvimento local. Pois, hoje em dia por todo o lado pensa-se que o turismo é a salvação de mts territórios! Enganam-se o Turismo é uma actividade muito delicada e , caso não seja desenvolvido de forma adequada pode ser muito prejudicial para esses territórios, sendo a morte destes. O turismo não se faz por grandes empreendimentos em que se visualiza o fácil lucro - imediato. Devemos saber aquilo que sao as necessidades dos turistas e visitantes que se deslocam à Trancoso ou outros lugares. Do meu ponto de vista os principais actores deste local não percebem as necessidades do territorio nem as suas potencialidades. Não é fazer rotundas e mais rotundas que vamos chegar ao desenvolvimento!
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